Para general Félix, arquivos vão expor vítimas do regime

Eliane Cantanhêde
Iuri Dantas

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, é radicalmente contra a abertura dos documentos da ditadura militar (1964-1985): "Não há nada bonito ali", diz ele. Curiosamente, justifica que sua preocupação não é poupar os torturadores e sim os perseguidos e torturados.

A versão de Félix, 65, é na prática um alerta às vítimas do regime que exigem a abertura dos documentos: os registros, segundo ele, mostram uma esquerda corrupta, que mantinha relações extraconjugais e delatava companheiros.

"Tem gente que naquela época estava na clandestinidade, tinha outra mulher e hoje está com a antiga. Se isso aparecer, você pode destruir uma família. Tem os companheiros, que entregaram, está escrito ali", disse Félix à Folha, no seu gabinete, a poucos metros do gabinete do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o general, nem sempre as delações eram forçadas. "Às vezes, não forçava, não. À vezes, [o preso] chegava lá e abria tudo. Por medo, não é?"

E quanto à tortura e aos desaparecimentos? "Não encontrei nada na Abin até agora", respondeu.

Cercado no Planalto por antigos opositores da ditadura, como o próprio Lula e os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Articulação Política), ele declarou : "O pior inimigo que você pode ter é o Estado. Não queria ter o Estado como inimigo."

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Folha - A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) é o novo SNI (Serviço Nacional de Informações)?

Jorge Armando Félix - O SNI foi extinto.

Folha - É um filhote?

Félix - É uma outra criança.

Folha - Em que casos Lula recebe um relatório da Abin?

Félix - Não recebe todos, nem daria tempo. Recebe aquilo que a Abin acha que deva chegar ou ao presidente ou a algum outro órgão. Algumas coisas eu levo ao presidente. Outras apenas comento.

Folha - O atual diretor da Abin, Mauro Marcelo de Lima e Silva, é a favor da permissão para escutas telefônicas. O sr. também?

Félix - Em alguns casos, seria interessante. Exemplo: chega alguém no Brasil suspeito de terrorismo. Acompanhar visualmente é possível, eventualmente vejo que está telefonando. Para quem? Falando o quê? Não sei.

Folha - O sr. entregou o cargo ao presidente e ele pediu para esperar a reforma ministerial?

Félix - Não. Ainda não me passou pela cabeça fazer um pedido de demissão. Nunca houve nenhuma razão, tenho tido todo tipo de consideração por parte do presidente e de todos os ministros. Não tenho problema de saúde na minha família, como alguns jornais andaram anunciando, não tenho nenhum tipo de problema com o diretor da Abin.
Antes de ele assumir, conversamos várias vezes. Ele sabe exatamente o papel dele, não temos nenhum tipo de contencioso. Ele não despacha diretamente com o presidente. Não despachou nenhuma vez, desde que assumiu.

Folha - E os encontros nos finais de semana?

Félix - Eles são amigos.

Folha - Isso não é uma forma de despacho, general?

Félix - Não. O presidente respeita o espaço de todas as pessoas. Tenho absoluta certeza de que não tratam de inteligência. Se porventura se encontraram não foi mais do que duas ou três vezes. Eventos sociais até.

Folha - Por que autoridades do próprio governo dizem que o sr. pediu demissão?

Félix - Não sei. É possível que haja pessoas ou grupos que queiram que eu peça demissão.

Folha - Por quê?

Félix - Não sei. Posso ser um obstáculo a determinados interesses e, às vezes, sou.

Folha - Por exemplo.

Félix - Interesses políticos. Às vezes tenho que tomar posições. Recebo a informação, levo ao presidente para ser trabalhada. O que vai ser feito com essa informação é um problema político.

Folha - Qual foi a sua reação quando o sr. viu a primeira nota do Exército, defendendo a ditadura e até os órgãos de repressão? Como o sr. soube?

Félix - Li nos jornais. No começo não houve muita reação, mas depois foi crescendo.

Folha - A primeira impressão?

Félix - Claro que a gente tem a sensação de luz amarela. A luz amarela acendeu, não é?

Folha - Inclusive no gabinete de crises do GSI?

Félix - Não houve luz amarela.

Folha - O sr. disse que acendeu;

Félix - Acendeu para mim, pela repercussão. Claro que procuramos acompanhar, mas não houve uma articulação nossa, porque é um outro tipo de problema, não é alguma coisa que exigisse articulação de vários ministérios.

Folha - O ministro da Defesa pediu demissão.

Félix - Isso aí foi um assunto tratado pelo ministro da Defesa e pelos comandantes militares. Só entramos, junto com os Direitos Humanos, porque [no caso das fotos que apreciam ser do jornalista Vladimir Herzog] éramos os detentores de uma informação que os outros não tinham.

Folha - Algumas perguntas ficam. Quem escreveu a nota? Por quê? É um indício de que há setores descontentes nas Forças Armadas?

Félix - Essas perguntas o Exército tem que responder, e acho que já respondeu até, de certa forma. Como militar, me preocupo porque vi uma repercussão muito negativa, mas, institucionalmente, funcionalmente, não podia me meter e não me meti.

Folha - Inteligência trabalha com cenários. Um dos cenários a partir da nota é que existe um foco de insatisfação, seja por salário ou por falta de equipamento, que pode vir a criar uma situação de confronto ou de constrangimento para o poder civil?

Félix - Acho difícil esse tipo de constrangimento. As Forças Armadas estão hoje perfeitamente enquadradas no funcionamento normal da sociedade. Elas têm um papel e desempenham. Agora, há manifestações de grupos, de pessoas, que não são manifestações da instituição.

Folha - Mas a nota foi uma manifestação da instituição.

Félix - Foi corrigida, não é?

Folha - Ou seja, era errada. Alguém, ou algum grupo, fez uma coisa errada e não aconteceu nada com os responsáveis.

Félix - Esse é um problema que diz respeito às Forças Armadas.

Folha - E se não houvesse recuo na nota? Seria preocupante?

Félix - Não necessariamente. É um problema muito mias político do que um problema de crise. Nas crises políticas não entramos.

Folha - Se houver um foco de insatisfação e a inteligência não detectar, não alertar, a responsabilidade não vai ser sua?

Félix - Por não ter prevenido. Por isso é que tem que ter um anteparo entre o presidente e a estrutura, para ter alguém para mandar embora.

Folha - O vice-presidente da República é demissível no Ministério da Defesa?

Félix - O vice-presidente da República tem habilidade suficiente para contornar qualquer crise. Ele é muito hábil e muito competente. Certamente vai levar muito bem o Ministério da Defesa.

Folha - Que arquivos da ditadura estão guardados na Abin?

Félix - Temos arquivos da Comissão Geral de Investigações, depois vamos recolher os do Conselho de Segurança Nacional, que fazia as cassações. Isso vai tudo para o Arquivo Nacional, no Rio. Temos os arquivos do SNI, estão miicrofilmados. E é aquela história. Não tem nada bonito ali.

Folha - Não tem nada bonito dos dois lados?

Félix - Não, só tem de um lado. É corrupção. Tomamos todas as precauções, porque ali trata-se de pessoas, e é preciso que se preserve a individualidade, o direito à privacidade. Essas pessoas estão aí, estão vivas.

Folha - E os documentos sobre tortura, desaparecimentos?

Félix - Não encontrei nada na Abin até agora. Há dossiês que nos preocupam, porque tratam de pessoas em situações extremamente constrangedoras.
Eu até gostaria de destruir esse tipo de documento. Isso não é história, não vai fazer bem a ninguém. Se aparecer, só vai fazer mal à reputação das pessoas, e tem gente aí, hoje, com 75, 80 anos de idade. Para que serve isso?

Folha - E o material dos Doi-Codi?

Félix - O que há ali são as microfichas. As pessoas fazem pedidos, já respondemos a 7 ou 8 mil pedidos de informação.

Folha - O governo diz que os documentos do Araguaia foram incinerados, mas isso exigia os termos da destruição. Onde está?

Félix - Nós não encontramos dentro da Abin. Continuamos procurando.

Folha - E nos órgãos de inteligência das Forças Armadas?

Félix - Isso é um problema das Forças Armadas.

Folha - O sr. vê problema em divulgar os arquivos?

Félix - Tem problema divulgar porque ali você fala de pessoas, de indivíduos. Tem gente que naquela época estava na clandestinidade, tinha outra mulher e hoje não tem, está com a antiga. Se isso aparecer, pode destruir uma família.
Tem os companheiros que entregaram, está escrito ali. Aquilo ali é problema daquela pessoa. Ninguém mais deve tomar conhecimento disso a não ser com autorização da pessoa ou da família, se ela tiver morrido.

Folha - Se houve delação, é porque alguém forçou.

Félix - Às vezes, não forçava, não. Às vezes, chegava lá e abria tudo. Por medo, não é?

Folha - Havia bons motivos para ter medo, não é, general?

Félix - O pior inimigo que você pode ter é o Estado. O Estado é muito poderoso. Não queira ter o Estado como inimigo. Não quero.

 

Fonte: Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 de novembro de 2004.

 

 

Outubro

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