MEMÓRIA EM RISCO:
O músico aposentado Ronoel Simões guarda em um dos andares de sua residência, no bairro do Bexiga, em São Paulo, o maior acervo da América sobre violão, com centenas de livros e milhares de partituras, gravações em 78 rpm, LPs, fitas e CDs. A coleção é referência para violonistas do mundo todo, que freqüentemente recorrem ao pesquisador em busca de informações sobre compositores e suas obras.
Aos 82 anos — 60 deles dedicados ao instrumento —, Simões não faz idéia sobre qual será o futuro de seu acervo, hoje enfrentando problemas de conservação, principalmente por causa de uma infiltração na parede de sua casa, que já danificou alguns objetos valiosos. Mesmo assim, afirma não ter a intenção de vendê-lo nem doá-lo. "Não sei quem vai cuidar disso depois que eu morrer", diz. "Como não tenho filhos, a coleção deve ficar com minha mulher ou com os meus sobrinhos", especula Ronoel Simões.
O pesquisador, que foi amigo de Heitor Villa-Lobos e do instrumentista espanhol Andrés Segovia, não se interessa nem pela sugestão do músico Turíbio Santos, diretor do Museu Villa-Lobos, do Rio: "Seria bom que ele doasse a coleção para uma instituição como o Museu da Imagem e do Som (MIS), onde seu nome e trabalho seriam perpetuados".
No Recife, a situação é ainda mais complicada. A família do pesquisador padre Jaime Diniz, professor da Universidade Federal de Pernambuco falecido em 1989, há anos tenta vender o acervo herdado. Já o ofereceram a conservatórios, fundações e secretarias de Cultura, mas todos se recusaram a pagar os R$ 30 mil pedidos, alegando falta de verba. "É um material gigantesco, que abrange principalmente música sacra e manifestações populares nordestinas", conta o maestro Ricardo Bernardes, pesquisador da Fundação Nacional da Arte (Funarte).
O acervo do padre Diniz, com partituras, livros e gravações, ocupou dois anos de trabalho da bibliotecária Leonice Ferreira, que voluntariamente se dispôs a organizar e classificar todos os itens. "Quem adquirir a coleção poderá dar continuidade aos estudos do pesquisador, que deixou diversas anotações de como levar seu trabalho adiante", explica.
As incertezas quanto ao destino destes e de outras dezenas de acervos particulares preocupa o compositor e produtor carioca Hermínio Bello de Carvalho, ele próprio dono de uma coleção que guarda raridades como gravações inéditas das cantoras Sarah Vaughan e Clementina de Jesus, além de uma infinidade de fotos, discos, cartas e roteiros de programas de rádio e televisão. "Já discuti esse assunto com o ministro da Cultura, pessoalmente. Acho que todos esses acervos deveriam ser cadastrados e organizado um índice onomástico e uma súmula do que cada um deles contém", sugere Carvalho. "Esse é apenas um exemplo de mapeamento que é essencial para quem pesquisa. O (Francisco) Weffort acatou a idéia, mas não sei se terá tempo de concretizá-la’; completa.
O produtor lamenta a perda da coleção de Albino Pinheiro, o último presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de Música Popular Brasileira, falecido há dois anos. "A Secretaria de Estado deveria ter imediatamente providenciado sua anexação ao arquivo do MIS, que, por sua vez, acho que não manifestou esse desejo quando da morte do Albino, um dos ícones do Rio de Janeiro", diz. Em compensação, Carvalho mostra-se feliz com o caso do jornalista José Ramos Tinhorão, que vendeu seu acervo ao Instituto Moreira Salles (IMS), no ano passado.
Dono de cerca de 7 mil discos, 6 mil livros, mais uma enorme quantidade de revistas, fotos e fitas, Tinhorão viveu por muitos anos num minúsculo apartamento de 31 metros quadrados, onde disputava espaço com o material. Para piorar, um dia os encanamentos do vizinho estouraram e as paredes de sua casa foram infiltradas. Perdeu muitos papéis. "Vendi porque não sou um colecionador fetichista e sabia que todo aquele material sendo usado por apenas uma pessoa significava um subaproveitamento’; conta o pesquisador.
Por um bom tempo, Tinhorão procurou um local para abrigar seu arquivo. Inicialmente, tentou doá-lo para a Casa Mário de Andrade, em São Paulo. "Foi um absurdo o que me disseram lá’; indigna-se o historiador. "Um dos assessores do secretário de Cultura do Estado falou que discos de música popular nada tinham a ver com Mário de Andrade." Na seqüência, tentou a Universidade de São Paulo. "Mas a professora responsável por um dos departamentos, bitolada em música erudita, começou a colocar empecilhos ao meu acervo popular." Após as tentativas frustradas de doação, o pesquisador pensou até em ir para a avenida São João, no Centro de São Paulo, e, durante uma semana, estender um pano na calçada para vender sua coleção, pedaço por pedaço. "Mas começaram então as negociações com o IMS", conta. Atualmente, Tinhorão coordena a organização do arquivo, que levará seu nome em um centro cultural na avenida Paulista, e ainda ministrará cursos, dando continuidade à sua pesquisa. A inauguração está prevista para o próximo ano.
O acesso do público ao material que possuem é outra preocupação dos pesquisadores. Por muitos anos, a casa do jornalista Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, em Fortaleza, funcionou como uma espécie de museu particular. Além de entusiasta da MPB — é dono de mais de 22 mil discos de 78 rpm, gravados por artistas nacionais —, conserva uma coleção que abrange áreas como fotografia e literatura. "Resolvi restringir o acesso a apenas alguns estudantes porque não tenho recursos para manter um museu", explica. Na época em que tomou a decisão, Nirez ainda enfrentou outro problema. "Por motivos eleitoreiros, um prefeito resolveu assorear um riacho que fica perto de casa e a água invadiu minha residência. Perdi 270 partituras", lamenta.
Para abrigar sua coleção, o jornalista Ary Vasconcelos foi obrigado a ocupar outro apartamento no prédio em que vive, no Rio. Livros e discos ficam estocados embaixo de camas e até no banheiro. Está tudo organizado, mas precariamente. Vasconcelos, autor dos dois volumes do Panorama da Música Popular Brasileira, um livro referência da MPB, explica que já não é possível realizar um trabalho decente apenas com os recursos de que dispõe, isto é, a aposentadoria e o dinheiro que recebe como diretor cultural da Associação Brasileira de Imprensa. "Já começo a pensar em um destino para isso tudo", revela.
Quando se fala em venda ou doação para órgãos governamentais, os donos das coleções ficam receosos. "Tenho medo do poder público. Prefiro que o material fique com minha família", afirma Nirez, cuja filha, bibliotecária, é responsável pela organização do acervo do pai. Não faltam exemplos que justificam esse temor. "Infelizmente, o arquivo de Jacob do Bandolim foi desmembrado pelo MIS, o que retira um pouco de seu valor como uma espécie de inventário da música carioca’ lembra Hermínio Bello de Carvalho.
Respeitada pelos pesquisadores de MPB, a historiadora Marília Trindade Barbosa, desde que assumiu a presidência do MIS do Rio, há dois anos, vem tentando organizar o acervo do museu, que em alguns setores ela classifica como incoerente. "A coleção sofreu problemas de continuidade. Por exemplo, temos um grande arquivo com fotos das décadas de 10, 20, 50 e 6o, mas as imagens dos anos 30 e 40 são poucas", diz.
Hoje, a política do MIS é a de não adquirir novos acervos. Optaram por concentrar esforços e dinheiro na digitalização daquilo que já existe. Para resolver o problema da continuidade, a historiadora sugere que seja criada uma lei que permita ao museu receber os discos e partituras que estejam saindo no mercado, o que atualmente não ocorre.
Em Natal, o médico Grácio Barbalho, um dos fundadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, guarda em uma das salas de sua casa 8 mil discos de 78 rpm. Aos 84 anos, não se considera um pesquisador. "Sou apenas um saudosista", afirma. Enquanto vê seu acervo sendo ultrapassado pelos avanços da tecnologia, com o CD e o MP3, prefere nem pensar no destino e na integridade daquilo que levou décadas juntando e conservando. "Procuro não me preocupar com isso. Como diz um amigo, depois que eu morrer, não saberei o que aconteceu mesmo."
HERDEIRO HONORÁRIO
Como um trabalho escolar acabou rendendo o espólio de Ernesto Nazareth a um pesquisador
O carioca Luiz António de Almeida era apenas um garoto de 14 anos que precisava fazer um trabalho escolar sobre o compositor e pianista Ernesto Nazareth (1863-1934), quando conheceu os herdeiros do músico — Diniz, o filho, de 90 anos, e Julita, a sobrinha, de 85. Isso foi no final dos anos 70. Mesmo depois de concluída a pesquisa que a professora havia pedido, preferia trocar a praia com os amigos pelas visitas à casa dos Nazareth.
Tornou-se um aficionado pelo compositor. Como não tinham filhos, Diniz e Julita praticamente o adotaram como neto. Viviam em duas casas num mesmo terreno, no Jardim América, subúrbio do Rio. Quando Diniz morreu, Julita quis alugar a casa da frente. Como não tinha onde abrigar os objetos, doou-os a Almeida, que, aos 19 anos, tomou-se o herdeiro honorário de todo o espólio do músico — da piteira ao piano italiano Sanzin, que o compositor recebeu de presente da sociedade paulistana, em 1926.
"Minha mãe ficou maluca quando me viu chegando em casa com uma sala de jantar de móveis antigos e a cama em que Nazareth dormia", lembra Almeida, que, além do mobiliário, conserva também um arquivo com 5 mil partituras, manuscritos, fatos e farta correspondência do autor de Brejeiro. Há poucos anos ele doou o piano ao Museu da Imagem e do Som, do Rio. "0 instrumento estava em péssimo estado e resolvi cedê-lo ao MIS com a condição de que fosse restaurado. E foi o que aconteceu", conta.
Ernesto Nazareth é unia figura fundamental para a linguagem do choro. De formação erudita, ainda menino se interessou pelos gêneros populares. Intérprete de Chopin, Liszt, Schumann e Beethoven, destacou-se como compositor de valsas e tangos brasileiros, sendo este um estilo que ele fixou e que nada tem a ver com a música portenha. Pai do choro, o tango brasileiro é similar ao maxixe, e resulta de uma fusão de melodias e ritmos da polca e do lundu. O tango mais conhecido de Nazareth é Odeon, composto em 1910. A canção ganhou letra de Vinícius de Mornas 58 anos mais tarde.
Com 39 anos e atuando como analista de marketing, Luiz Antônio de Almeida guarda a coleção que herdou em um sítio de sua família, em Teresópolis (RJ). Embora esteja bem alojada, a conservação é preocupante. "Tenho medo de que o telhado da casa sofra algum problema e os objetos sejam danificados pela chuva ou algo parecido", explica. Depois de 25 anos de vida dedicados a Ernesto Nazareth, ele acaba de concluir a biografia do compositor. Enquanto busca um patrocinador para poder lançá-la, procura algum instituto cultural ou fundação para vender o acervo. "Salvei a memória do homem Nazareth ao herdar todos os seus objetos pessoais. Mas, quando eu morrer, tudo pode se perder." Infelizmente, o pesquisador não sabe dizer o que é mais difícil de acontecer: algum órgão cultural se dispor a criar um museu para Nazareth ou aparecer um novo garoto de 14 anos interessado em dedicar a vida a perpetuar a memória do compositor.
PESQUISADORES UNIDOS
Depois de 15 anos do último encontro nacional, os principais estudiosos da música popular brasileira se reúnem no MIS-RJ
Dono de um discurso inflamado e reconhecido adversário da bossa nova de Tom Jobim, José Ramos Tinhorão não mede as palavras para criticar a atual gestão do Ministério da Cultura. "Do lado oficial, o tratamento dado à cultura é ridículo. Os responsáveis pelos órgãos públicas são insensíveis e sua atuação é igual a zero", avalia. As idéias do jornalista contra a desnacionalização da música ("Meu cavalo de batalha há décadas", diz) estarão em discussão durante o Encontro Nacional de Pesquisadores de Música Popular Brasileira, que será realizado no MIS, do Rio, entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro.
Após um hiato de 15 anos, músicos, produtores, historiadores e jornalistas especializados voltam a se reunir em oficinas, palestras e debates com a MPB como tema. "Um evento como esse é importante, porque possibilita trocas de informações entre pessoas que enfrentam dificuldades para desenvolver seus trabalhos", explica Tinhorão, que estará lançando, durante o encontro, uma coletânea de artigos seus publicados no Jornal do Brasil e em O Pasquim.
O primeiro desses encontros foi idealizado pelo crítico paranaense Aramis Millarch, falecido em 1992. Preocupado em preservar a obra do pai, Francisco Millarch, criou uma página na internet chamada Tablóide Digital (www.millarch.org), que disponibiliza gratuitamente parte dos 50 mil artigos escritos pelo jornalista em seus 32 anos de profissão.
Hermínio Bello de Carvalho pretende sugerir um debate sobre a situação dos acervos particulares. "Seria mais do que pertinente que esse assunto fosse tratado, até porque o evento reunirá detentores de arquivos preciosos, como Sérgio Cabral, Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello", explica o produtor.
O MALDITO VOLTA À CARGA
(por Gilberto Maringoni)
A fama de maldito que o critico musical José Ramos Tinhorão granjeou em intermináveis polêmicas atrapalhou um pouco a vida do pesquisador José Ramas Tinhorão. Não, não há erro de revisão aqui — trata-se da mesma pessoa física —e os trabalhos são complementares. Mas as acusações que enfrentou ao longo de mais de três décadas — desde que apontou a bossa nova como um gênero "montado" no Brasil "à base de procedimentos da música clássica e de jazz" — encobriram seu apurado trabalho de historiador da música popular.
Aventureiro de sebos, bibliotecas e arquivos empoeirados no Brasil e em Portugal, Tinhorão construiu uma alentada obra que chega agora ao seu 21º volume, Cultura Popular, Temas e Questões. Na forma e no nome, assemelha-se ao seu primeiro livro, Música Popular - um Tema em Debate, de 1966: é uma coletânea de 11 artigos e conferências sobre assuntos que variam da música caipira e dos antecedentes do romance de cordel até as origens do circo brasileiro e as raízes brasileiras do fado, criado aqui e transplantado para Portugal, no século 18. O livro é quase uma síntese de suas obras anteriores, no qual Tinhorão desfia erudição, rigor teórico e apuração minuciosa, embalados num ágil texto jornalístico. Pode-se discordar de suas opiniões de alto a baixo. Mas é quase impossível não se render à solidez de suas fontes.
Naquele que talvez seja o melhor texto do volume, "A vocação caipira de uma cidade cosmopolita", Tinhorão busca explicações para "a surpreendente pobreza criativa das camadas populares paulistanas", em oposição a Salvador, Recife e Rio de Janeiro. O epíteto de "túmulo do samba", consagrado por Vinícius de Moraes, é apenas mais uma entre as várias constatações desta carência.
Para o pesquisador, "enquanto as demais capitais diversificavam suas atividades, ampliando a divisão social (o que permitia às várias camadas estruturar diferentes culturas), São Paulo preservou de tal forma sua condição de centro administrativo de economia rural que o início da imigração estrangeira e o surgimento das indústrias deixaram novas camadas sem modelos urbanos que se pudessem enquadrar". Em conseqüência disso, segundo ele, gerou-se uma "inconsistência das criações populares (...) na área do lazer".
Ao mesmo tempo que procurava reproduzir "no ambiente urbano a vida das fazendas", São Paulo conheceu um surto de crescimento a partir de 1870, que a transformou — para o mal e para o bem — no "centro urbano de mais forte caráter cosmopolita do Brasil".
Quando descreve os antecedentes da artes circenses, Tinhorão recua até o Império Romano, passeia pela Idade Média e aporta em terras sul-americanas pela Argentina, através dos "espetáculos de picadeiro com elementos gauchescos". Este percurso serve para descrever o nascimento de uma "figura destinada a emprestar sua universalidade criação de um dos mais curiosos exemplos culturais de diluição do geral no particular", o palhaço.
Em todos os ensaios, o autor não esconde sua linhagem teórica. "Se não se quiser reduzir a história à mera crônica dos fatos", avisa ele na introdução, "torna-se necessário encontrar o nexo (...), a ligação às vezes oculta entre o mundo real em que as coisas acontecem e as formas sociais e culturais que afinal vão assumir, através do comportamento ou ação humana". E cita o jovem Marx para corroborar seu enunciado: "A história constitui, na verdade, a história natural do homem".
Cultura Popular, Temas e Questões tem o mérito de unir informações aparentemente desconexas e chamar a atenção para detalhes às vezes secundários em outras obras — como as referências musicais em Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freyre — para com por um breve painel histórico da cultura urbana brasileira. E não faltam também algumas estocadas na bossa nova e no tropicalismo. Claro, marca registrada de José Ramos Tinhorão.
Fonte: Cartacapital, São Paulo, 17 de outubro de 2001, p.15- 19.