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O Centro de Memória da Academia Brasileira de Letras fez, no dia 26 de novembro de 1998, o lançamento dos três primeiros números da série de publicações Comunicação Técnica. Esta série tem como objetivo proporcionar um espaço editorial próprio, adequado para a divulgação de experiências e reflexões técnico-científicas.Fazem parte desta linha editorial temas como cultura, memória, informação, arquivologia, museologia, preservação, patrimônio, todos eles coerentes com os objetivos do Centro de Memória da Academia. Este primeiro número aborda alguns aspectos conceituais da preservação, da relação necessária entre preservação de acervos arquivísticos e biblioteconômicos e das escolhas políticas que determinam o processo da preservação.
Algumas
reflexões sobre preservação de acervos em
arquivos e bibliotecas Os
conceitos de preservação, conservação e restauração, relativamente novos
no mundo, bem recentes no Brasil e, certamente, ainda muito longe de um
consenso, configuram uma área com certo grau de nebulosidade entre os
profissionais-conservadores, arquivistas, bibliotecários, museólogos,
teóricos, cientistas etc.Ward1 (1992, p. 67) expõe a utilidade de se explicar
a terminologia usada em trabalhos referentes à conservação, chamando atenção
para a mistura de significados entre os termos "preservação, conservação
e restauração", não só em relação às línguas inglesa, francesa e
espanhola, como também no que concerne ao seu uso entre os organismos
internacionais, e ainda, por exemplo, ao uso pela museologia.Conservación
(em Espanhol) corresponde a conservation/preservation (no Inglês)
e a conservation (em Francês). Já o especialista en conservación
(em Espanhol) tem como correspondente (em Inglês) conservator/conservation
scientist, ou professionnel de la conservation (em Francês).
Um conservator atua tanto na conservação, como na preservação,
e o restorer, apenas na restauração.Historicamente, a intervenção
ou a aplicação específica de tratamento em documentos ou monumentos, com
o sentido de recuperação física de suporte, surge nos museus apenas como
restauração e assume um sentido de intervenção estética, concentrada nas
obras de arte e nos monumentos arquitetônicos. É com a grande inundação
na cidade de Florença, na Itália, em 1968, – atingindo indistintamente
museus, arquivos e bibliotecas e causando uma enorme quantidade de danos
nos acervos–, que os restauradores começam a vislumbrar a necessidade
de tratamentos para aplicação em massa.A diversidade dos acervos atingidos
e o volume de documentos danificados passam a exigir não apenas dedicação
exclusiva, intensa, rotineira dos restauradores/conservadores, mas postura
e conhecimento interdisciplinares. Naquele momento, a restauração/conservação
busca respaldo técnico e científico na química, na biologia, na engenharia
dos materiais. Preocupa-se com aspectos filosóficos, éticos, históricos.
De um lado, surgem os cientistas da conservação e os centros de pesquisa
específicos e, de outro, uma nova ordem de preocupações com a restauração,
que passaria a focalizar não só a unidade documental, mas, principalmente,
o conjunto dos acervos.
Os critérios para determinar quais as coleções que teriam o privilégio de serem salvas compõem uma terceira etapa histórica. Essas escolhas nascem no seio das instituições e remetem a políticas institucionais. A partir da formulação de tais políticas, surge o conceito entendido, hoje, como preservação, que reúne, contempla e exige conhecimentos e técnicas de intervenção interdisciplinares. O eixo da questão desloca-se, da escolha do tipo e da profundidade da intervenção de restauro, para a mais adequada escolha ética, filosófica e conceitual a ser aplicada na preservação dos acervos. Noções e conceitos Preservação, portanto, deve ser entendida, hoje em dia, pelo seu sentido geral e abrangente. Seria, então, toda ação que se destina a salvaguardar ou a recuperar as condições físicas e proporcionar permanência aos materiais dos suportes que contêm a informação. É o "guarda-chuva", sob o qual se "abrigam" a conservação, a restauração e a conservação preventiva. À preservação cabe ainda a responsabilidade de determinar as escolhas mais adequadas de reformatação de suporte para a transferência da informação.Abrigadas pelo conceito maior de preservação, a conservação e a restauração são intervenções na estrutura dos materiais.A conservação é um conjunto de procedimentos que tem por objetivo melhorar o estado físico do suporte, aumentar sua permanência e prolongar-lhe a vida útil, possibilitando, desta forma, o seu acesso por parte das gerações futuras. A restauração é um conjunto de proce-dimentos que visa a recuperar, o mais próximo possível, o estado original de uma obra ou documento. Em ambos os casos, são intervenções de tratamento por peça única, individual, na unidade documental. Já que implica tratamento individual por peça, a conservação/restauração exige seleção e treinamento de pessoal, sendo de custo elevado e de extensa duração.Conservação preventiva abrange não só a melhoria das condições do meio ambiente nas áreas de guarda de acervo e nos meios de arma-zenagem, como também cuidados com o acondicionamento e o uso adequado dos acervos, visando a retardar a degradação dos materiais. É, pois, um tratamento de massa, feito em conjunto.Para Conway2 (1996), apenas a partir do final dos anos 70, a comunidade de profissionais nos EUA aproxima-se de um consenso sobre a questão dos conceitos fundamentais. Conway lembra ainda que, durante muito tempo, os termos "conservação" e "preservação" foram usados como equivalentes pelos profissionais encarregados da guarda e da proteção de livros, documentos de arquivos e objetos museológicos. "Hoje, preservação é uma palavra que envolve inúmeras políticas e opções de ação, incluindo tratamentos de conservação. Preservação é a aquisição, organização e distribuição de recursos, a fim de impedir posterior deterioração ou renovar a possibilidade de utilização de um seleto grupo de materiais." (Conway, 1996, p. 6) Dando
toda a ênfase possível à alocação de recursos, como parte essencial da
preservação ou, nas palavras desse autor, "gerenciamento de preservação"–
que significa a organização e as garantias de operacionalização de recursos
humanos, financeiros e materiais para a devida proteção às fontes de informação
–, Conway diz ainda que "a preservação preocupa-se com os objetos
propriamente ditos e com a evidência embutida no conteúdo intelectual
dos objetos".Assim, Conway acrescenta:
A
importância da alocação de recursos financeiros apresentada por Conway
não impede que ele lembre, também, que a carência de conhecimento específico
tem o mesmo grau de importância. Verifica-se em Darling3, apud
Conway, que:
Reportando-se à prioridade atribuida, no Brasil, aos monumentos de pedra e cal, nos quais os arquitetos desenvolvem um trabalho incisivo, Costa concorda com Darling ao dizer que a origem da diferença entre a preservação de bens móveis e imóveis começa com a tomada de consciência dessa diferença, e só será superada com o conhecimento, "uma vez que só do conhecimento advém a verdadeira proteção". (Costa, 1987, p. 150) Uma dimensão política da tecnologia A observação de um conjunto de referenciais teóricos e conceituais – que identificam e sinalizam uma relação dialética entre política de preservação e tecnologia – configura um quadro a ser considerado com atenção, tanto na definição e implementação das políticas públicas de preservação, quanto na escolha da tecnologia adequada para tal. Ou seja, a definição e a implementação de políticas públicas de preservação têm, como um dos seus condicionantes fundamentais, a opção por uma ou mais tecnologias de informação. E a escolha de uma ou mais tecnologias, sobre as quais se baseia uma política de preservação, resulta de opções não só tecnológicas, mas, também, políticas. Reconhecem-se tais pressupostos, tendo em vista a existência de uma relação dialética envolvendo ambas as dimensões a tecnológica e a política.Para a compreensão do que se pretende, é importante entender "tecnologia" como todo produto da ciência, como algo resultante do conhecimento, em qualquer das áreas sob investigação científica ou empírica.Conforme Pirró e Longo, apud Barreto (1992, p. 12), a tecnologia é definida como "o conjunto de todos os conhecimentos – científicos, empíricos ou intuitivos – empregados na produção e na comercialização de bens e serviços".De acordo com Barreto (ibid., p. 12), o conceito de tecnologia está associado ao de conhecimento, e este é entendido como um "conjunto de informações absorvidas ou assimiladas", capaz de transformar "a estrutura cognitiva do indivíduo, do grupo ou da sociedade". Esse conjunto de conhecimentos, quando transportado para o desenvolvimento ou a melhoria de produtos e serviços de uso no mercado, adquire importância econômica, sob forma de patentes, produtividade, eficiência e conforto material.Para Barreto (ibid., p. 13):
Assim,
tecnologias de preservação podem ser definidas como o conjunto de conhecimentos,
procedimentos e equipamentos necessários ao tratamento dos documentos
e ao controle de seu ambiente de guarda, acondicionamento e uso, para
a prorrogação da vida útil dos registros produzidos ao longo da história,
possibilitando acesso quanto à forma e/ou conteúdo.Fazem parte desse conjunto:
a conservação preventiva, as técnicas de conservação/restauração propriamente
ditas, o controle da temperatura, da umidade relativa do ar, da luz, dos
poluentes atmosféricos, a desacidificação em massa, a reformatação em
papel, (fílmica ou digital), e as novas ferramentas intelectuais para
gerenciamento ambiental.A escolha correta da tecnologia apropriada para
determinado acervo é resultado direto da análise de dados coletados, como:–
quantificação precisa das variáveis que compõem o ambiente;– observação
rigorosa do uso e da função social dos documentos;– aplicação factível
de providências administrativas;– correta avaliação de orçamentos disponíveis;–
planejamento para o gerenciamento contínuo e permanente; e– estabilidade
e amplitude das diretrizes formuladas, que possam garantir continuidade
à adoção das escolhas tecnológicas feitas e implantadas, sem que ocorra
prejuízo de continuidade.Na relação dialética proposta, é possível, enfim,
perceber a dimensão política das escolhas tecnológicas. Em 1981, quando
abordava a questão da preservação como um dos problemas mais urgentes
das bibliotecas, Hazen prevenia que a solução vem, não dos conhecimentos
técnicos/científicos específicos (níveis de pH, degradação molecular,
hidrólise ácida etc.), mas, sim, da alocação de recursos para cobrir os
imensos custos da preservação. A resolução dessa questão "deveria
estar vinculada àqueles que definem a política bibliotecária, em geral,
e que distribuem recursos para implementá-la", pois "apenas
os administradores de mais alto nível podem pretender falar às autoridades
sobre políticas e compromissos de preservação de um sistema inteiro."
(Hazen, 1997, p. 3)Portanto, para Hazen (ibid.), a preservação
está fora do alcance dos técnicos e pertence aos que tomam decisões. Essa
circunstância envolve, primeiro, uma escolha entre a preservação de massa
e a de item-por-item, as quais formam dois cenários distintos de tomada
de decisão.
Essa
diferenciação caracteriza a dimensão política da tecnologia para preservação.
O tratamento em massa, hoje consolidado pela conservação preventiva, provê
gasto racional dos recursos, ataque ordenado e sistemático às ameaças
ao acervo e amplo alcance no trato das coleções. Além disso, reduz a situação
de privilégio de uma determinada obra que, ao ser tratada individualmente,
é pinçada no meio de muitos outros documentos, igualmente ameaçados e
que ficam relegados a um segundo plano.
Uma
segunda escolha a ser feita em um programa de preservação, do ponto de
vista da dimensão política da tecnologia, é a que se refere à critérios
para os diferentes tipos de acervo, em detrimento de outros, critérios
estes estabelecidos de acordo com os interesses, usos, a função social
e a valoração do momento, por aqueles que detêm a instância das decisões.Em
1986, essa questão era abordada por Atkinson, que dividia os acervos de
bibliotecas em três tipos:– os da Classe 1, com elevado valor de uso;–
os da Classe 2, com elevado valor econômico; e– os da Classe 3, de pouco
uso no momento, mas de valor para a pesquisa futura.Estes últimos têm
caráter nacional e são, geralmente, mantidos em sistemas cooperativos,
em que predomina o uso da microfilmagem.Através dessas categorias, Atkinson
pretende explicar como e por que uma tomada de decisão acaba definindo
o que deve "sobreviver" e o que não deve, dentro do que ele
chama de "sistema de deterioração planejada". (Atkinson, 1997,
p. 14)A visão de preservar para o futuro é a mais problemática para Atkinson,
pois envolve uma decisão tomada com base nas circunstâncias contemporâneas,
pensando – necessariamente – nos seus reflexos para o futuro. Como decidir
o que preservar, agora, para uso ulterior?
Entende-se
que esta é uma questão de largo alcance, a qual, raras vezes, é contemplada
no fórum de discussões para a definição e formulação das políticas de
preservação dos suportes que contêm os conhecimentos produzidos e registrados
até agora – o que pode ser interpretado, também, como uma decisão política
e uma opção ideológica.Conforme Atkinson:
Ainda
que a análise de Atkinson seja feita no contexto norte-americano, portanto,
numa sociedade desenvolvida e com fortes estruturas democráticas – nestes
aspectos, bem diferente do Brasil –, esse relativismo nem sempre é tão
relativo, nem sempre tão ético, nem sempre tão epistemológico, mas, principalmente,
fruto absoluto de uma ideologia e de uma classe de elite, em qualquer
lugar do mundo ocidental. Através de uma perspectiva histórica, podem
ser observados contornos progressivamente mais absolutos e ostensivamente
excludentes.A amplitude dessas características – relativismo ético e epistemo-lógico
– resulta em um número cada vez maior de documentos impressos recolhidos
às bibliotecas, tornando a escolha cada vez mais difícil. Ainda que no
Brasil ocorra um certo desrespeito quanto ao depósito legal obrigatório
à Biblioteca Nacional, a questão teórica proposta é pertinente.Atkinson
afirma que essa tendência é demonstrada por um ideal de "inclusividade",
que permeia as bibliotecas americanas e que faz com que "a Biblioteca
do Congresso seja a melhor biblioteca do país e, não à toa, a maior."
(ibid., p. 18)
Uma política que opta pela preservação da totalidade dos registros pode ser uma séria ameaça a essa mesma preservação. A falta de um aparato epistemológico definido é, segundo Atkinson, o que impede aos formuladores de políticas a obtenção de um nível ótimo de qualidade ou critérios de veracidade, que iluminem a decisão pela rejeição ou pela aceitação dos materiais de bibliotecas. O gerenciamento no desenvolvimento das coleções deve fazer parte dos planejamentos de preservação.Assim, devem ser reforçados os valores atuais que determinam o patrimônio cultural que está sendo preservando para o futuro. A escolha política e tecnológica que é feita agora, direcionada apenas para atender a uma possibilidade futura, é determinada por esses mesmos valores de relativismo ético, humanístico e epistemológico vigentes.Conforme Atkinson:
Preservação e políticas públicas de preservação no Brasil A criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, fundado como o primeiro e mais forte marco na história da preservação do patrimônio da memória nacional –, e hierarquicamente subordinado ao Ministério da Educação, trouxe-lhe a responsabilidade geral de cuidar dos mais diferentes registros da memória social brasileira, os quais constituem o chamado patrimônio cultural, histórico e artístico nacional. Foi, nessa estrutura, que os acervos arquivísticos, biblioteconômicos, museológicos, artísticos, arquitetônicos e seus congêneres encontraram, em maior ou menor grau, proteção legal. E foi no mesmo âmbito, também, que surgiram as políticas responsáveis pelo estabelecimento das diretrizes de atuação.Assim, no Brasil, as políticas públicas de preservação – por não distinguirem nem o conteúdo, nem o suporte, nem o uso dos registros sob sua guarda – colocaram os mais diferentes acervos sob uma mesma categoria política, ou seja, a da política cultural. Se a preservação dos acervos arquivísticos e biblioteconômicos no Brasil está contemplada, em grande parte, nas políticas culturais, como, então, identificar as políticas públicas de preservação, no campo da informação e no campo do patrimônio cultural? Qual o objeto das políticas públicas de preservação no Brasil? O que é bem cultural, o que é documento, o que é patrimônio?A escolha feita pelo Estado, muitas vezes, tem forte cunho pessoal, como revelam algumas observações feitas por Jardim (1995, p. 121):
Se,
ao Estado, cabem a guarda e a preservação dos documentos no Brasil, cabe
também a ele, antes de tudo, saber o que preservar. Para isso, é necessário
um conhecimento teórico, que permita identificar o que e quem produz,
respeitando-se as diversidades e peculiaridades de um país multifacetado.No
levantamento das nossas políticas públicas de preservação, é impossível
fugir da identificação dos valores dados a este ou àquele objeto
ou bem cultural, em detrimento de outro. Seria a identificação do motivo
da escolha. Conforme Menezes (1994, p. 22):
Na
confirmação óbvia das escolhas, Menezes (ibid., p. 24) afirma
que estas:
Quais
foram e quais são esses sentidos e valores no decorrer da construção das
políticas públicas de preservação no Brasil? Como eram a sociedade e a
mentalidade, quais conceitos e valores predominaram, por exemplo, na definição
do decreto-lei nº 5, de 1937? E depois, como esses critérios caminharam?
Para Menezes, essa escolha não tem sido o resultado automático das "necessidades
e respostas", mas de uma "mediação simbólica". E tal mediação
é a "instância da cultura"; é, enfim, uma forma de proceder.
Como procederam e como procedem os formuladores das políticas públicas
de preservação no Brasil? Segundo Menezes (ibid., p. 28):
Conclui
o mesmo autor (ibid., p. 28):
São
valores, portanto, essencialmente, de "caráter político". Para
Menezes, o caráter "humano" dessas atribuições de valor (com
enormes e inúmeros conflitos, desarmonia etc.) acaba sugerindo ser indispensável
a "formulação de políticas e estratégias de atuação [...] e formas
institucionais de indicação de valor." Mas, como se formam e são
formuladas essas políticas e estratégias? Quais são e quais foram as formas
institucionais para a indicação de valores no Brasil?As políticas voltadas
para a preservação da memória nacional registrada em documentos de arquivos
e bibliotecas têm se caracterizado por grandes dificuldades de implementação
e continuidade. Ao longo dos últimos 20 anos, o Estado apresentou um projeto
– encampado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN, que substituiu o antigo SPHAN) –, através de um programa que se
chamou Pró-Documento (para a preservação dos arquivos nacionais privados),
que acabaria relegado a um terceiro plano e ficaria depois esquecido.Na
mesma época, as diretrizes concebidas no Arquivo Nacional para a preservação
dos documentos arquivísticos públicos ou acervos privados de interesse
público e social, contempladas no anteprojeto de lei nº 8.159, criaram
um fórum contencioso com o próprio IPHAN, o Ministério da Cultura e o
Ministério da Justiça. Questões conceituais, operacionais, delimitações
do campo de atuação e de atribuições caracterizam esse momento de preocupação
com a preservação dos acervos arquivísticos4.Em um país como o Brasil,
com graves deficiências no sistema de educação, e onde a democracia é
caracterizada por uma cidadania oscilante, o patrimônio cultural e a memória
social sobre papel, por um lado, ficam preteridos por não terem o apelo
econômico/financeiro, visual e estético, que possa atrair investimentos
privados, em comparação, por exemplo, com as obras da arquitetura barroca.Por
outro lado, a difusão e o acesso democrático de uma informação bem gerida,
preservada e acessível, acabam se distanciando dos objetivos mais imediatos
do Estado, que estaria, aparentemente, longe de querer consolidar uma
solução para os justos anseios da sociedade.Seguindo as tendências de
seu corpo técnico, formado basicamente de arquitetos, o IPHAN privilegia
o monumento nacional de pedra e cal – isto é, igrejas, conventos, fazendas,
enfim, o registro arquitetônico, principalmente o barroco –, em detrimento
dos registros sobre papel, dos acervos de arquivos e bibliotecas, ainda
que estes se encontrem contemplados no mencionado decreto.Em Miceli, com
referência ao IPHAN, encontra-se:
Segundo
Falcão, são dois os indicadores da identidade política da preservação
no Brasil: o primeiro está consubstanciado na "continuidade político-burocrática
do IPHAN" de Rodrigo M. F. de Andrade, e o outro, na "homogeneidade
de seu corpo técnico", para quem "preservar é, sobretudo, restaurar
arquitetonicamente".(Falcão, 1984, p. 24)Essa predominância dos chamados
monumentos de pedra e cal, na atenção das políticas públicas de preservação
do patrimônio cultural brasileiro, assim como a forte ingerência do Estado,
podem ser verificadas em comunicação de Fenelon (1992), na qual fica claro
um círculo vicioso: a predominância do Estado, na escolha do que deve
ser preservado; e, dentro do Estado, a predominância do IPHAN; no IPHAN,
a predo-minância da arquitetura; e, na arquitetura, a predominância do
barroco; no barroco, a predominância do Estado português colonizador.
Círculo vicioso e repetidor da interferência do Estado, e do caráter autoritário
de sua intervenção desde os primórdios do Brasil.Conforme Fenelon:
Fica
aqui explícita a ruptura, em mais esse aspecto, entre as realizações ordinárias
e rotineiras da sociedade civil, e aquilo imposto e aceito, e assim tratado
como cultura, pelo Estado. O hiato entre a consciência de sua história,
a ser construída pelo quebra-cabeça de uma memória coletiva, e a cultura
imposta, confere um certo grau de esquizofrenia na relação entre o Estado
e diversos segmentos da sociedade brasileira.Para Fenelon:
Seria
isso obra do acaso? Falcão questiona se essa política de preservação,
se as escolhas feitas, se as decisões tomadas contribuem mais para a democratização
do Brasil do que aquelas abandonadas. (Falcão, 1984, p. 24)A determinação
política e a distribuição dos recursos que vêm das instâncias superiores
pressionam fortemente a sociedade brasileira a aceitar imposições, como
uma "opção democrática". É o Estado determinando o que é melhor
para a sociedade.De acordo com Falcão:
Se
dentro de uma real política de preservação estivesse o IPHAN empenhado,
deveria, em primeiro lugar, ainda segundo Falcão:
Nesse
sentido, informação e conhecimento, somados à participação, nas decisões,
de um contingente significativo e representativo da sociedade brasileira,
se apresentam como fundamentais. Fazem parte do processo: a abertura formal
e o despertar das possibilidades, na sociedade, dos potenciais informacionais
dos acervos arquivísticos e biblioteconômicos. Cabe à sociedade, como
um todo, a possibilidade de projetar esses acervos para um primeiro plano,
quer eles estejam contemplados nas políticas culturais, quer nas políticas
de informação, ou em qualquer outro âmbito.Será este, então, um dos motivos
do desprestígio para com os acervos informacionais do país no que concerne
às políticas de preservação?Parece existir, primeiramente, um problema
de conceituação. O que pode ou deve ser considerado patrimônio histórico?
E cultural? E o que é patrimônio "artístico"? E onde estão contemplados
os diferentes acervos documentais de arquivos e bibliotecas?
Qualquer que seja o entendimento de cultura, observa-se que limites conceituais elásticos contribuem enormemente para desfavorecer as atuais políticas. Pode ser um bom começo, portanto, a busca de definições para acervos documentais de arquivos e bibliotecas, e de seu respectivo enquadramento como patrimônio nacional.A preservação dos acervos documentais exige uma conceituação própria e diferenciada, e até mesmo um enquadramento específico, nas políticas públicas de preservação, ou em qualquer política que abranja, também, a proteção dos acervos arquivísticos e bibliote-conômicos. "Cultura", nos países periféricos, ocupa posição menor nos orça-mentos e nas atenções políticas. A pouca visibilidade do patrimônio documental, por sua vez – nas políticas públicas de preservação desses países e nas respectivas políticas culturais, em geral, é, não só o mais forte indicativo e a causa do naufrágio, ou descuido dos repositórios arquivísticos e biblioteconômicos, como também, e justamente por isso, do fracasso de escassas políticas específicas implementadas pela e para a área, até o momento. Trindade
(1987) já reivindicava uma política específica e definição para patrimônio
documental, em mesa-redonda promovida pelo antigo SPHAN, quando apontou
a estagnação das políticas institucionais e a falta de legislação "mais
precisa e eficaz", bem como a falta de "definição do que é esse
patrimônio documental".Conforme esse autor:
A
inclusão do documento como simples objeto cultural, aceitando-se como
"documento" aquilo que contenha informação de "natureza
testemunhal e instrumental", dentro de determinado contexto, é o
começo de sua trajetória nos labirintos das políticas culturais e do dito
patrimônio cultural.Em comunicação apresentada no Seminário Latino-Americano
sobre Arquivos Nacionais, em 1982, García Belsunce também reivindicava
um espaço privilegiado para os acervos documentais:
Ainda
que a letra fria dos textos legais brasileiros contemple os acervos documentais,
na prática, os exemplos da exclusão da proteção documental na aplicação
das políticas públicas, se sucedem, seja, por exemplo, pela subordinação
administrativo-burocrática de um Arquivo Nacional ao Ministério da Justiça,
seja pelo pouco ou nenhum apelo do direcionamento social aos arquivos
e bibliotecas, quando comparado à atração visual e de mercado para obras
de arte, igrejas e conventos. Como exceção que confirma a regra, temos,
no Brasil, apenas o natimorto Pró-Documento.Quando Jardim cita o decreto-lei
nº 25, afirma (1995, p. 80):
Tal
limitação incidiria sobre um segmento do chamado patrimônio cultural,
ou seja, o patrimônio documental arquivístico, para o qual o setor cultural
do governo federal jamais propôs uma política específica. A ação mais
próxima neste sentido foi a do Programa de Preservação da Documentação
Histórica (Pró-Documento), de cujos quadros técnicos sairiam as críticas
mais contundentes ao anteprojeto da Lei dos Arquivos."Em Cunha (1992,
p. 10), observa-se a ratificação do assunto:
Associando
a questão da memória à cidadania e reconhecendo estar a memória, no Brasil,
submetida a um campo privilegiado da política, Cunha (1992) propõe a soma
dos papéis profissionais com a dimensão política do trabalho da área e
conclui:
Hoje,
pode-se perceber uma sutil e muda divergência – o que, na realidade, é
mais um retrato das indefinições nas políticas públicas do País – entre
o que é categorizado como o conjunto de acervos documentais e o que é
qualificado como acervos culturais. A preservação e o acesso aos jornais
e periódicos do acervo da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, por exemplo
– os quais suscitaram a implantação, na década de 1970, do Plano Nacional
de Microfilmagem de Periódicos Brasileiros –, estão enquadrados como "acervo
cultural".Assim, pergunta-se: o conjunto hemerográfico brasileiro,
tanto público como privado, – apesar de estar sob força de lei (Lei do
Depósito Legal5 para a Biblioteca Nacional), que indica essa Biblioteca
como repositório automático e obrigatório de todas as publicações no Brasil
–, juridicamente subordinada ao Ministério da Cultura e, portanto, às
políticas culturais deste, estaria de todo alijado de eventuais políticas
públicas de informação?Ao contemplar os acervos arquivísticos e biblioteconômicos
no Brasil apenas na categoria "cultura", desconsiderando-os
como informação, as políticas públicas de preservação sinalizam para a
necessidade de uma redefinição na sua formulação. A busca de novas perspectivas,
de diretrizes mais abrangentes que possam atingir seu propósito, e a redefinição
de critérios de atuação para o Estado, através da reordenação de seus
institutos e órgãos executores, podem ser reconhecidas como iniciativas
capazes de viabilizar a preservação necessária.Concluindo, entende-se
que a preservação depende do conhecimento, como base para decisões políticas.
É preciso saber o que preservar, antes de tudo. A urgência na preservação
dos acervos produzidos no passado tende a desfavorecer a preservação dos
registros produzidos no presente. Produto de escolhas anteriores, às políticas
de preservação, de hoje, caberiam questões do tipo: –Como sabemos o que
sabemos? Por que sabemos aquilo que sabemos? Qual a origem de nossas referências
culturais? Quem sabe de onde estas vieram? Quem são aqueles que sabem?É
ao considerar as relações sugeridas entre política, tecnologia e conhecimento,
que os arquivistas, bibliotecários e conservadores encontram respaldo
científico para planejar e propor projetos de preservação para seus acervos.
Entende-se que a falta de conhecimento, mais que a escassez de recursos
financeiros, é que leva à deterioração dos acervos. Assim, hoje, a preservação
deve ser entendida como uma escolha tecnológica, científica e política,
em que identificar e conhecer o que deve ser feito, e como deve ser feito,
torna-se o mais importante.Resolvendo essas questões agora, inúmeras soluções
poderão ser encontradas com vistas ao futuro.
Notas 1
Philip Ward é conselheiro do Instituto Canadense de Conservação e especialista
em conservação de patrimônio cultural.2 Paul Conway é diretor do Departamento
de Preservação da Biblioteca da Universidade de Yale, Estados Unidos.3
Pamela Darling é autora de Creativity versus Despair: The Challenge
of Preservation Administration. Library Trends 30, 1981, p.
179-188.4 O contencioso estabelecido entre o Ministério da Cultura e o
Ministério da Justiça, na questão da proteção dos documentos de arquivos,
pode ser melhor entendido em José Maria Jardim,1995, p.80.
5 Decreto nº 1825, de 1907, que estabelecia a obrigatoriedade da entrega, à Biblioteca Nacional, de um exemplar de cada publicação feita no Brasil, com o objetivo de expandir o acervo da referida Biblioteca e exercer o controle bibliográfico nacional. Bibliografia ATKINSON, Ross W. Seleção para Preservação: uma abordagem materialística. Rio de Janeiro, Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos, Arquivo Nacional, 1997. ANTUNES, Gilson, TRINDADE, Jaelson, JARDIM, José Maria & DREIFUSS, René Armand. Mesa Redonda: Acervos Arquivísticos. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, SPHAN/MinC, 1987. n.22. p. 171-185. BARRETO, Aldo de Albuquerque. Informação e Transferência de Tecnologia: mecanismos de absorção de novas tecnologias. Brasília, IBICT, 1992. CUNHA, Maria Clementina Pereira (org.) O Direito à Memória: Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo, Departamento do Patrimônio Histórico, 1992, p. 37-46. CONWAY, Paul. Preservação no Universo Digital. Rio de Janeiro, Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos, Arquivo Nacional, 1997. FALCÃO, Joaquim Arruda. Política Cultural e Democracia: a preservação do patrimônio histórico e artístico nacional. In: MICELI, Sérgio (org). Estado e Cultura no Brasil. São Paulo, DIFEL, 1984. p. 21-39. FENELON, Déa Ribeiro. Políticas Culturais e Patrimônio Histórico. In: CUNHA, Maria Clementina Pereira (org.) O Direito à Memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo, Departamento do Patrimônio Histórico, 1992, p. 29-33. GARCÍA BELSUNCE, César A. Legislação Sobre a Proteção do Patrimônio Documental e Cultural. Acervo. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, v.1, n.1, jan/jun 1986. p. 29-39. HAZEN, Dan. Desenvolvimento, Gerenciamento e Preservação de Coleções. Rio de Janeiro: Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos, Arquivo Nacional, 1997. JARDIM, José Maria. Sistemas e Políticas Públicas de Arquivos no Brasil. Niterói, EDUFF, 1995.MENEZES, Ulpiano Bezerra de. Os "Usos Culturais" da Cultura. Anais do Museu Paulista. Nova Série Universidade, v.2, São Paulo, jan/dez 1994. MICELI, Sérgio. SPHAN: refrigério da cultura oficial. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, SPHAN/MinC, 1987. n.22. p. 44-47. WARD, Philip. La Conservación del Patrimonio: carrera contra el reloj. Califórnia, Getty Conservation Institute, 1986. |